Por Janainna Rosa
A semana reforçou uma característica importante do mercado financeiro: o cenário muda rapidamente e aquilo que parecia ser um catalisador positivo pode perder força em poucas semanas.
O Ibovespa encerrou a semana com a nona sessão consecutiva de queda, enquanto investidores estrangeiros reduziram posições na Bolsa brasileira. Ao mesmo tempo, o mercado passou a enxergar com mais cautela a trajetória da Selic, diante de uma ata do Copom mais firme, das expectativas de inflação ainda desancoradas e da aproximação das eleições.
No exterior, os dados mais fracos do mercado de trabalho americano e a inflação mais moderada reduziram a pressão por uma alta imediata dos juros do Federal Reserve. Porém, o petróleo próximo de US$ 90 e as tensões no Oriente Médio continuam adicionando incerteza ao cenário.
E, no campo comercial, a abertura do processo brasileiro de reciprocidade contra as tarifas dos Estados Unidos adicionou mais uma variável ao chamado risco Brasil.
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Fechamento dos mercados
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira e que funciona como um termômetro do desempenho das maiores empresas listadas na B3 caiu 0,10% nesta sexta-feira, aos 166.934 pontos.Na semana, o índice acumulou perda de 3,27%.
A pressão veio principalmente da combinação entre saída de capital estrangeiro, incertezas fiscais e eleitorais e aumento da cautela em relação aos próximos passos da política econômica.
O dólar à vista avançou 0,52%, para R$ 5,2199, acumulando alta de 2,68% na semana.
O movimento do câmbio é relevante porque o dólar funciona como um dos principais termômetros de percepção de risco. Quando investidores reduzem exposição ao Brasil, a demanda por moeda americana tende a aumentar e o real pode se depreciar.
No exterior, o movimento também foi negativo:
- S&P 500: -0,19%
- Dow Jones: -0,22%
- Nasdaq: -0,34%
A realização de lucros e a alta do petróleo, próximo de US$ 90, limitaram o desempenho das bolsas americanas.
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Panorama da semana
A semana foi marcada por uma mudança importante na percepção dos investidores.
O mercado brasileiro começou 2026 beneficiado pela entrada de recursos estrangeiros, pela expectativa de queda dos juros e pela busca global por ativos de mercados emergentes.
Esse cenário mudou.
Agora, os investidores precisam equilibrar inflação ainda elevada, Selic em 14%, incerteza fiscal, eleições, tarifas comerciais, saída de capital estrangeiro e desaceleração da economia.
Ao mesmo tempo, o Brasil não apresenta apenas notícias negativas: a inflação corrente está mais comportada, o mercado de trabalho continua forte e a Bolsa apresenta valuations considerados atrativos por alguns analistas.
O ponto central é que os fatores positivos já não estão sendo suficientes para compensar o aumento da percepção de risco.
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Selic cai para 14%, mas o Banco Central mantem cautela
O Copom reduziu a Selic de 14,25% para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual.
A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. Ela influencia o custo dos empréstimos, financiamentos, investimentos de renda fixa e, indiretamente, o consumo e os investimentos das empresas.
O corte era amplamente esperado.
O que mudou foi a interpretação sobre o que vem depois.
A ata divulgada nesta semana mostrou um Banco Central preocupado com dois tipos de pressão inflacionária.
De um lado, os choques de oferta, como petróleo e eventos climáticos. O BC deixou claro que não pretende reagir automaticamente ao primeiro impacto desses eventos, mas poderá agir com firmeza caso eles se espalhem para outros preços da economia.
É o chamado efeito de segunda ordem.
Por exemplo: o petróleo sobe → combustível fica mais caro → transporte fica mais caro → empresas aumentam custos → esses custos são repassados para outros produtos e serviços.
É essa segunda etapa que preocupa o Banco Central.
Do outro lado, existe a pressão da demanda. O BC avalia que medidas de estímulo adotadas pelo governo podem manter o consumo aquecido em um momento em que a inflação ainda não está totalmente controlada.
Por isso, embora novos cortes continuem possíveis, o Banco Central não assumiu compromisso com uma sequência de reduções.
A mensagem pode ser resumida assim:
A Selic caiu, mas o Banco Central não tirou o pé do freio.
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Dados da inflação
O IPCA de julho avançou 0,07%, acima da expectativas, após alta de 0,16% em junho.
A inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,44%.
O IPCA é o principal indicador utilizado para medir a inflação ao consumidor no Brasil. Em termos simples, ele mostra quanto o conjunto de bens e serviços consumidos pelas famílias está ficando mais caro.
A queda dos alimentos merece atenção especial para Mato Grosso, um dos principais polos agropecuários do país.
Uma oferta agrícola mais favorável pode contribuir para reduzir preços de alimentos e aliviar parte da inflação ao consumidor. Para uma economia com forte participação do agronegócio, como a mato-grossense, essa dinâmica é particularmente relevante.
Mas existe uma diferença importante:
inflação corrente mais baixa não significa que o problema inflacionário esteja totalmente resolvido.
As expectativas para os próximos anos continuam acima da meta de 3% do Banco Central. Por isso, o Copom permanece cauteloso.
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Mercado de trabalho continua forte
Outro ponto importante foi a divulgação dos dados da PNAD Contínua.
A taxa de desemprego caiu para 5,4% no segundo trimestre, contra 6,1% no primeiro trimestre.
A população ocupada chegou a 103,1 milhões de pessoas, enquanto o número de desempregados caiu para aproximadamente 5,9 milhões.
A subutilização da força de trabalho também recuou para 12,9%.
A taxa de subutilização é mais ampla que o desemprego tradicional: considera não apenas quem está sem trabalho, mas também pessoas que gostariam de trabalhar mais horas ou que estão disponíveis para trabalhar, mas não aparecem na taxa convencional de desemprego.
E Mato Grosso?
O Estado apresentou uma das menores taxas de desemprego do país: 2,2%, atrás apenas de Santa Catarina.
Esse dado reforça a importância do mercado de trabalho regional e da força da economia mato-grossense.
Para o Banco Central, porém, um mercado de trabalho muito resiliente também merece atenção. Quanto mais forte estiver a renda e o emprego, maior pode ser a sustentação do consumo e, consequentemente, da demanda por produtos e serviços.
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EUA: mercado de trabalho muda a perspectiva para o Fed
Nos Estados Unidos, o destaque foi o payroll, relatório que acompanha a criação de empregos fora do setor agrícola e é um dos principais indicadores observados pelo Federal Reserve.
A economia americana perdeu 23 mil vagas em julho, enquanto o mercado esperava criação de aproximadamente 80 mil.
Além disso, os números de maio e junho foram revisados fortemente para baixo.
O desemprego ficou em 4,1%.
Isso acontece porque o Fed precisa equilibrar dois objetivos: controlar a inflação sem enfraquecer excessivamente o mercado de trabalho e a economia.
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Inflação americana também traz algum alívio
O CPI, índice de preços ao consumidor americano, ficou em 3,4% em 12 meses em julho, ante 3,5% em junho.
O chamado núcleo da inflação, que exclui alimentos e energia por serem mais voláteis, ficou em 2,5% em 12 meses.
A leitura foi relativamente favorável.
Somada ao mercado de trabalho mais fraco, ela reduziu a pressão para que o Fed aumente imediatamente os juros.
Mas o cenário ainda enfrenta vários fatores a serem analisados e também incertezas.
A inflação permanece acima da meta de 2%, enquanto o petróleo e as tensões geopolíticas podem gerar novas pressões.
Por isso, o mercado continua dividido sobre os próximos passos do Fed.
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Bolsa brasileira: o que mudou em poucas semanas?
Aqui está uma das principais conexões desta semana.
Há menos de dois meses, havia recomendações de grandes casas internacionais favorecendo a Bolsa brasileira, apoiadas principalmente pela expectativa de queda da Selic, entrada de estrangeiros e potencial de valorização dos ativos.
Agora, o cenário mudou.
O JPMorgan reduziu a recomendação para o Brasil de “overweight” para “neutra”.
Em linguagem simples, significa que o banco deixou de recomendar uma exposição acima da média à Bolsa brasileira dentro de sua carteira de ações da América Latina.
Entre os motivos citados estão:
- fim próximo do ciclo de flexibilização monetária;
- desaceleração econômica;
- deterioração do crédito;
- aumento da incerteza eleitoral;
- maior volatilidade;
- necessidade de esperar maior clareza sobre o cenário.
O banco ainda projeta um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro, seguido por uma pausa prolongada.
O que essa mudança nos ensina?
Que o mercado financeiro é dinâmico.
Uma recomendação que fazia sentido há algumas semanas pode deixar de fazer sentido quando mudam os juros, inflação, fluxo estrangeiro, cenário fiscal ou perspectiva eleitoral.
Por isso, acompanhar apenas o preço de um ativo não é suficiente.
É preciso acompanhar o que mudou por trás daquele preço.
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Estrangeiros começam a retirar recursos da B3
Os dados da B3 mostram uma mudança significativa no fluxo internacional.
Os investidores estrangeiros retiraram aproximadamente R$ 5,5 bilhões da Bolsa brasileira apenas na primeira semana de agosto.
Isso contrasta com a entrada de R$ 2,6 bilhões registrada em julho e com um primeiro semestre bastante positivo.
O fluxo estrangeiro é importante porque investidores internacionais representam parcela relevante da liquidez da Bolsa brasileira.
Quando esses investidores aumentam suas posições, podem contribuir para a valorização dos ativos.
Quando reduzem exposição, podem aumentar a pressão vendedora.
E atualmente existe uma disputa por capital.
Nos Estados Unidos, os índices continuam próximos de máximas históricas, impulsionados principalmente pelas empresas de tecnologia e pela expectativa de crescimento relacionada à inteligência artificial.
Ou seja: o investidor estrangeiro não está apenas deixando o Brasil; ele também está encontrando alternativas mais atrativas em outros mercados.
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Por que o Ibovespa cai enquanto Wall Street bate recordes?
A diferença entre Brasil e Estados Unidos se tornou um dos principais temas da semana.
Enquanto o Ibovespa acumula perdas em agosto, S&P 500 e Nasdaq continuam próximos de máximas.
A explicação passa por cinco fatores principais:
- Eleições brasileiras: aumentam a incerteza sobre a política econômica do próximo governo.
- Fiscal: investidores questionam a capacidade de estabilização da dívida pública e das contas do governo.
- Selic: a perspectiva de novos cortes ficou mais incerta.
- Fluxo estrangeiro: investidores internacionais começaram a reduzir posições no Brasil.
- Inteligência artificial e tecnologia: os resultados das grandes empresas americanas continuam atraindo capital global.
O resultado é uma diferença cada vez maior entre os dois mercados.
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Fiscal continua sendo um dos principais riscos
O governo conseguiu registrar arrecadação federal recorde, mas a dívida pública permanece acima de R$ 9 trilhões.
Isso mostra uma questão importante:
arrecadar mais não significa necessariamente reduzir a dívida.
Com juros elevados, o custo de carregamento da dívida permanece alto. O governo precisa continuar emitindo títulos para financiar despesas e refinanciar compromissos.
Por isso, o mercado acompanha não apenas quanto o governo arrecada, mas principalmente:
- evolução das despesas;
- resultado fiscal;
- trajetória da dívida;
- necessidade de financiamento;
- credibilidade das metas fiscais.
A percepção de risco fiscal influencia diretamente juros, câmbio e Bolsa.
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Tarifas: o problema agora é a escalada
A guerra comercial entre Brasil e Estados Unidos entrou em uma nova etapa.
Depois das tarifas americanas, o governo brasileiro acionou mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica.
A medida, por enquanto, não significa automaticamente uma nova tarifa brasileira.
O objetivo é criar espaço para negociação e demonstrar que o Brasil não pretende aceitar passivamente as medidas americanas.
O mercado, porém, está olhando para a reação dos Estados Unidos.
Esse é o ponto central.
A tarifa inicial já era conhecida e parte relevante de seu impacto já havia sido incorporada aos preços.
Agora, o risco está nos efeitos de segunda ordem:
- novas tarifas;
- retaliações;
- sanções;
- redução das exportações;
- aumento de custos;
- pressão sobre o câmbio;
- revisão de investimentos;
- deterioração da relação diplomática.
Por isso, o anúncio da reciprocidade é menos importante pelo efeito econômico imediato e mais pelo risco de escalada que pode representar.
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Oriente Médio: petróleo volta ao centro do radar
O conflito envolvendo Estados Unidos e Irã também voltou a ganhar importância.
Em determinado momento, o mercado passou a entender que o conflito poderia se prolongar sem necessariamente gerar uma escalada significativa nos preços do petróleo.
Essa percepção mudou.
Com as tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas para o transporte mundial de petróleo, o Brent voltou a se aproximar de US$ 90 por barril.
O petróleo é especialmente importante porque pode afetar simultaneamente:
combustíveis → inflação → juros → atividade econômica → Bolsa.
Para o Brasil, existe ainda um efeito adicional.
A alta do petróleo pode beneficiar empresas produtoras, como a Petrobras, mas também pode aumentar custos para consumidores e empresas e pressionar a inflação.
Portanto, não é simplesmente uma questão de “petróleo alto é bom ou ruim”.
Depende de onde o impacto aparece na economia.
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A grande leitura da semana
O mercado brasileiro entrou em uma fase mais seletiva.
Os fundamentos positivos continuam existindo:
- inflação corrente mais comportada;
- mercado de trabalho forte;
- possibilidade de novos cortes da Selic;
- Bolsa com valuations considerados atrativos;
- empresas com bons resultados;
- capacidade de atração de investimentos em determinados setores.
Mas os riscos aumentaram:
- eleições;
- incerteza fiscal;
- menor expectativa de cortes de juros;
- saída de capital estrangeiro;
- tarifas americanas;
- risco de retaliação;
- petróleo elevado;
- cenário geopolítico;
- competição com os ativos americanos.
Por isso, talvez a principal mensagem desta semana seja:
O mercado não mudou porque o Brasil deixou de ter oportunidades. Ele mudou porque o prêmio exigido para assumir risco brasileiro aumentou.
Para o investidor, isso reforça a importância de não tomar decisões apenas olhando para a alta ou queda da Bolsa.
Preço importa. Mas contexto importa ainda mais.
Uma carteira construída para atravessar diferentes cenários precisa considerar liquidez, prazo, risco, diversificação e a relação entre os ativos especialmente em um momento em que as variáveis econômicas e políticas estão mudando rapidamente.
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Radar da próxima semana
Brasil
- Desdobramentos da Lei da Reciprocidade e das negociações com os EUA.
- Fluxo de investidores estrangeiros na B3.
- Novas sinalizações do Banco Central sobre a Selic.
- Evolução das expectativas de inflação.
- Indicadores de atividade e mercado de trabalho.
- Cenário fiscal e eleitoral.
Estados Unidos
- Novos dados de inflação e atividade.
- Expectativas para a reunião do Fed em setembro.
- Evolução do mercado de trabalho.
- Temporada de resultados corporativos e desempenho das empresas de tecnologia.
Exterior e commodities
- Conflito entre EUA e Irã.
- Situação do Estreito de Ormuz.
- Petróleo Brent e seus impactos sobre inflação e mercados.
- Minério de ferro e reflexos sobre empresas brasileiras.
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Fontes utilizadas
Banco Central do Brasil | IBGE | B3 | Ministério do Trabalho e Emprego | CNI | Federal Reserve | Reuters | Investing.com | InfoMoney | Money Times
Janainna Rosa
Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos
MBA em Banking e Mercado de Capitais
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