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Juros elevados, crédito sob pressão, eleições no radar e Fed volta a preocupar
Por Janainna Rosa

O que movimentou a semana

A semana foi marcada por uma combinação de fatores que reforça um cenário de maior seletividade para os mercados: juros ainda elevados no Brasil, sinais de desaceleração da atividade, preocupação crescente com crédito e endividamento, incertezas fiscais e eleitorais e, no exterior, uma mudança importante no discurso sobre a trajetória dos juros americanos.

No Brasil, o impacto defasado da política monetária começa a aparecer com mais intensidade. O avanço da inadimplência, os pedidos de recuperação judicial e a desaceleração das emissões no mercado de capitais mostram que o custo do dinheiro começa a limitar a capacidade de empresas e famílias de continuar se alavancando.

O tema ganhou ainda mais relevância diante da discussão sobre a dívida pública brasileira, que se aproxima de R$ 10 trilhões, enquanto a Selic permanece em 14% ao ano.

Ao mesmo tempo, a inflação corrente trouxe uma fotografia bastante favorável. O IPCA-15 registrou deflação de 0,40% em agosto, primeira queda desde setembro do ano passado. Mas existe uma ressalva importante: parte relevante dessa deflação veio de um efeito pontual do Bônus de Itaipu sobre as tarifas de energia elétrica. O benefício representa a devolução aos consumidores de um saldo financeiro positivo obtido com a comercialização da energia da parte brasileira da usina no ano anterior. Portanto, não deve ser interpretado como uma tendência estrutural de queda da inflação.

No exterior, o principal destaque foi o discurso de Kevin Warsh no simpósio de Jackson Hole. O presidente do Federal Reserve afirmou que o Fed terá “trabalho a fazer” caso não esteja confiante de que a inflação subjacente está convergindo para a meta de 2%. A mensagem foi interpretada como mais dura e reacendeu as discussões sobre a possibilidade de juros americanos permanecerem elevados — ou até subirem — caso a inflação continue resistente.

Mesmo diante desse ambiente, o Ibovespa encerrou a semana com forte recuperação, acumulando a oitava alta consecutiva e valorização de 2,7% na semana.

A principal leitura é que o mercado continua dividido entre dois movimentos: de um lado, sinais de desaceleração econômica que podem abrir espaço para cortes de juros; de outro, inflação, fiscal, crédito e ambiente externo que limitam a velocidade desse processo.

Fechamento da semana

Brasil

Ibovespa: +0,30%
175.664,62 pontos

O índice engatou a oitava alta consecutiva e acumulou valorização de 2,7% na semana.

O movimento foi sustentado principalmente pelo setor financeiro e pelas ações da Petrobras, que compensaram a queda de Wall Street e o recuo da Vale.

Entre os destaques positivos:

  • B3SA3: +2,16%
  • PETR4: +1,94%
  • PETR3: +1,73%
  • Índice Financeiro (IFNC): +0,73%

Entre as maiores quedas:

  • MRVE3: -5,30%
  • VALE3: -0,91% Dólar

O dólar à vista subiu 0,67%, encerrando a sessão a R$ 5,1965 e acumulando alta de aproximadamente 1% na semana.

Estados Unidos

Wall Street fechou em queda após o tom mais duro de Kevin Warsh:

  • Dow Jones: -0,02%
  • S&P 500: -0,25%
  • Nasdaq: -0,52%

Exterior

  • Stoxx 600: +0,51%
  • Nikkei: +0,41%
  • Hang Seng: +0,07%

A divergência entre Brasil e Estados Unidos foi um dos pontos interessantes do fechamento. Com o discurso do Fed pressionando as bolsas americanas, fatores domésticos e o desempenho de Petrobras e bancos sustentaram o Ibovespa.

Crédito: o efeito dos juros chegou

Um dos temas mais importantes da semana foi a deterioração gradual das condições de crédito.

Depois de um longo período em que empresas e famílias conseguiram compensar os juros bancários elevados utilizando mercado de capitais, consignado, cartões e estruturas como FIDCs, os efeitos da política monetária restritiva começam a aparecer.

O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia, com aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas, tornou-se um dos símbolos desse processo.

Isso não significa que exista uma crise generalizada de crédito neste momento.

O alerta está na direção dos indicadores.

As emissões de debêntures caíram 28,7% no ano até julho. As captações de CRIs recuaram 23,5%, enquanto os CRAs tiveram queda de 57,5%.

Ou seja, o mercado de capitais, que durante algum tempo ajudou a manter o crédito disponível mesmo com a política monetária restritiva, também começa a perder força.

O problema é potencialmente maior porque empresas e famílias chegam a esse momento com elevado grau de endividamento.

O risco para os próximos meses está em um ciclo de:

juros elevados → menor crédito → aumento da inadimplência → redução do consumo e investimento → desaceleração da atividade.

É justamente essa dinâmica que faz alguns economistas elevarem a atenção para 2027.

Juros a 14% e dívida próxima de R$ 10 trilhões

O debate sobre crédito está diretamente ligado ao problema fiscal.

A dívida pública brasileira se aproxima de R$ 10 trilhões, enquanto a Selic permanece em 14% ao ano.

O desafio está na combinação entre uma dívida elevada e um custo financeiro significativo.

A discussão desta semana mostrou novamente o conflito entre política fiscal, política monetária e sistema financeiro.

Quando o governo mantém uma política fiscal expansionista, aumenta a necessidade de o Banco Central manter uma postura monetária restritiva para evitar que a demanda permaneça pressionando a inflação.

Ao mesmo tempo, juros elevados aumentam o custo de financiamento das famílias, empresas e do próprio governo.

O resultado é um ciclo difícil de romper:

fiscal expansionista → pressão inflacionária → juros altos → crédito mais caro → maior endividamento → desaceleração econômica.

A saída passa por uma questão que continua no centro das discussões de mercado: um ajuste fiscal crível capaz de reduzir o prêmio de risco e abrir espaço para uma queda mais sustentável dos juros.

IBC-Br confirma perda de ritmo da economia

Os dados recentes de atividade reforçam que o efeito dos juros começa a chegar à economia real.

O IBC-Br recuou 0,64% em junho e avançou apenas 0,2% no segundo trimestre, uma desaceleração relevante diante do crescimento de 1,23% no primeiro trimestre.

A composição também mostra diferenças importantes:

  • Indústria: -1,4%
  • Serviços: -0,5%
  • Impostos: -1,0%
  • Agropecuária: +1,0%

O dado reforça a expectativa de um segundo semestre mais fraco.

O ponto central para o investidor é entender se essa desaceleração será suficiente para reduzir as pressões inflacionárias e permitir ao Banco Central acelerar os cortes de juros — ou se a inflação e as expectativas permanecerão suficientemente elevadas para impedir uma flexibilização mais rápida.

IPCA-15: deflação é positiva, mas precisa ser interpretada com cuidado

O IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, primeira deflação desde setembro do ano passado.

Em 12 meses, o indicador acumulou alta de 4,24%, abaixo dos 4,52% registrados anteriormente.

O resultado foi bastante influenciado pelo grupo Habitação, que caiu 1,41%.

A energia elétrica residencial recuou 6,25%, contribuindo com -0,26 ponto percentual para o índice.

Mas aqui existe uma ressalva importante.

O efeito Itaipu é pontual

A queda da energia ocorreu principalmente pela entrada do Bônus de Itaipu, creditado nas faturas emitidas em agosto.

O mecanismo representa a devolução aos consumidores de um saldo financeiro positivo obtido com a comercialização da energia gerada pela parte brasileira da Usina Hidrelétrica de Itaipu no ano anterior.

Portanto, trata-se de um efeito pontual, concentrado nas faturas de agosto, e não de uma redução estrutural do custo da energia.

Essa distinção é importante para a leitura da inflação.

O resultado do IPCA-15 foi muito positivo, mas não significa que a inflação esteja estruturalmente controlada na mesma intensidade mostrada pelo índice do mês.

Além da energia, também houve contribuição de combustíveis e alimentos:

  • Transportes: -1,00%
  • Passagens aéreas: -13,30%
  • Combustíveis: -1,43%
  • Alimentação e bebidas: -0,57%
  • Alimentação no domicílio: -0,97%

O mercado continuará olhando principalmente para inflação de serviços, expectativas e possíveis efeitos de câmbio, petróleo e atividade.

Mercado de trabalho começa a mostrar sinais de desaceleração

O mercado de trabalho também entrou no radar.

O Caged registrou criação de 58.568 vagas formais em julho, abaixo das expectativas do mercado.

A reação foi importante na curva de juros.

Com um mercado de trabalho menos aquecido, aumenta a percepção de desaceleração da economia e, consequentemente, pode crescer o espaço para cortes da Selic.

O contrato de DI para janeiro de 2027 chegou a tocar 13,615% na mínima intradiária.

A questão, porém, é que o mercado de trabalho ainda permanece resiliente.

O cenário, portanto, não é de colapso do emprego, mas de perda gradual de ritmo.

Essa é uma das variáveis que o Banco Central precisará acompanhar de perto.

BRB: caso Master e Reag adiciona risco ao radar financeiro

Outro assunto relevante foi a decisão da Assembleia Geral Extraordinária do Banco de Brasília (BRB).

Os acionistas aprovaram autorização para que o banco possa promover ação de responsabilidade civil contra ex-administradores que venham a ser identificados como responsáveis por eventuais prejuízos ao patrimônio da instituição.

A medida está relacionada às operações envolvendo o ecossistema Banco Master e Reag Investimentos, no contexto dos fatos apurados na Operação Compliance Zero.

Durante a assembleia, acionistas questionaram a ausência de identificação dos administradores.

A administração esclareceu que a autorização possui caráter procedimental e que a identificação dos responsáveis dependerá dos elementos que forem apurados.

O episódio merece atenção não apenas pelo caso específico, mas porque reforça a importância de governança, gestão de risco, controles internos e diligência na análise de instituições financeiras e operações de crédito.

Brasil: 2027 começa a aparecer como o grande ponto de atenção

A discussão sobre uma possível recessão em 2027 ganhou força nesta semana.

Algumas casas passaram a trabalhar com cenários mais conservadores para o crescimento, enquanto economistas alertam para a combinação entre:

juros elevados + crédito mais restrito + endividamento + menor estímulo fiscal + desaceleração econômica.

A Franklin Templeton estima aproximadamente 20% de probabilidade de recessão em 2027, embora tenha como cenário-base crescimento de 1,5%.

O Focus citado na reportagem trabalha com crescimento de 1,57% para 2027 e Selic de 13,75% no fim de 2026.

O ponto mais importante não é escolher qual projeção estará correta.

É observar a assimetria de riscos.

Se o fiscal não avançar, a economia pode enfrentar simultaneamente crescimento mais fraco, juros elevados e prêmio de risco maior.

Esse seria um cenário particularmente difícil para empresas e famílias altamente alavancadas.

Fed: inflação volta a dominar o debate

Nos Estados Unidos, a semana terminou com uma mudança relevante na percepção sobre os juros.

Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, afirmou em Jackson Hole que o Fed terá “trabalho a fazer” caso não esteja confiante de que a inflação subjacente está retornando à meta de 2%.

O ponto importante foi o reconhecimento de que as condições financeiras não parecem suficientemente restritivas.

Segundo Warsh, aproximadamente metade dos componentes da cesta do PCE apresenta inflação acima de 3% ao ano.

O PCE, indicador preferido pelo Fed, permanece em 3,7% em 12 meses até julho, segundo o material encaminhado.

A mensagem foi mais dura do que as anteriores e reacendeu a possibilidade de que os juros americanos precisem permanecer elevados por mais tempo.

Warsh, porém, não indicou um cronograma para aumentos e deixou claro que suas declarações não deveriam ser interpretadas como uma orientação prospectiva.

A próxima reunião do Fed acontece em 15 e 16 de setembro.

PCE, emprego e juros: o mercado continua dividido

A economia americana apresenta um dilema semelhante, mas em outra configuração.

De um lado:

inflação persistente → necessidade de manter juros elevados.

De outro:

atividade desacelerando + mercado de trabalho perdendo força → risco de aperto monetário excessivo.

Os próximos dados de emprego e inflação serão fundamentais para definir qual desses dois lados ganhará força.

A atenção estará especialmente voltada para os dados de agosto, que serão divulgados antes da reunião de setembro.

O mercado terá de acompanhar não apenas a inflação cheia, mas principalmente os componentes considerados mais persistentes.

Treasuries: juros longos continuam sendo um problema global

A discussão sobre juros americanos vai além da decisão do Fed.

Os juros dos Treasuries de longo prazo permanecem elevados, com o Treasury de 30 anos acima de 5,30%.

Isso acontece em um contexto de:

  • dívida pública americana elevada;
  • déficits fiscais;
  • necessidade de financiamento;
  • inflação ainda resistente;
  • petróleo;
  • forte emissão de dívida corporativa;
  • investimentos relacionados à inteligência artificial.

Para mercados emergentes, como o Brasil, o efeito é direto.

Quando o investidor consegue obter uma remuneração elevada em títulos americanos considerados de menor risco, o retorno exigido para assumir risco em países emergentes aumenta.

Isso pode pressionar:

fluxo estrangeiro → câmbio → juros longos → Bolsa.

Por isso, os Treasuries continuam sendo uma das variáveis mais importantes para acompanhar.

Petróleo: queda na semana, mas risco geopolítico permanece

O petróleo acumulou queda de aproximadamente 6% na semana, mas continua sendo um ponto relevante de atenção.

O mercado segue monitorando as tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo.

Além disso, a prorrogação do imposto sobre exportação de combustíveis por 60 dias adiciona outra variável ao mercado de energia.

Para o Brasil, o petróleo produz efeitos diferentes.

De um lado, preços mais elevados podem favorecer empresas produtoras.

De outro, petróleo mais caro pode pressionar combustíveis, inflação e custos de transporte, reduzindo o espaço para cortes de juros.

A variável precisa, portanto, ser analisada dentro do contexto macroeconômico.

A grande leitura da semana

O mercado entrou em uma fase na qual juros, crédito e fiscal estão cada vez mais conectados.

A inflação corrente trouxe uma boa notícia, mas parte importante da deflação de agosto foi explicada por fatores pontuais, especialmente o Bônus de Itaipu.

A atividade econômica, por outro lado, mostra sinais mais claros de desaceleração.

O crédito começa a perder força.

Empresas e famílias continuam altamente endividadas.

O mercado de trabalho apresenta sinais de perda de ritmo.

E, enquanto isso, o Banco Central precisa avaliar até onde pode reduzir os juros sem comprometer o processo de desinflação.

No exterior, o Fed também enfrenta um dilema: a atividade dá sinais de moderação, mas a inflação continua acima da meta.

O resultado é um ambiente em que boas notícias para a atividade podem ser ruins para a inflação, enquanto boas notícias para a inflação podem significar uma economia mais fraca.

Para o investidor, isso reforça a necessidade de olhar para além do movimento diário dos mercados.

A alta de 2,7% do Ibovespa na semana mostra que o mercado pode continuar subindo mesmo diante de riscos relevantes.

Mas uma alta de Bolsa não significa necessariamente que os riscos desapareceram.

O que mudou foi a precificação.

E, neste momento, o mercado continua extremamente sensível a qualquer mudança nas expectativas de juros, fiscal, inflação, crédito e eleições.

O que acompanhar na próxima semana

Brasil

  • Próximos dados de inflação e expectativas;
  • Evolução do crédito e da inadimplência;
  • Dados de emprego e atividade;
  • Curva de juros futuros;
  • Próximos passos do Banco Central;
  • Trajetória da dívida pública;
  • Medidas relacionadas ao endividamento das famílias;
  • Ambiente fiscal e eleitoral;
  • Desdobramentos envolvendo BRB, Master e Reag.

Estados Unidos

  • Inflação e PCE;
  • Mercado de trabalho;
  • Expectativas para a reunião do Fed em setembro;
  • Novas declarações de dirigentes do Federal Reserve;
  • Treasuries, principalmente os vencimentos longos;
  • Dados de consumo e atividade.

Exterior e commodities

  • Petróleo e situação do Estreito de Ormuz;
  • Dólar global;
  • Fluxo para mercados emergentes;
  • Minério de ferro;
  • Relação entre juros americanos e moedas emergentes.

Fontes de referência

Banco Central do Brasil, IBGE, FGV, B3, Tesouro Nacional, Federal Reserve, Reuters, Investing.com,Franklin Templeton, BM&C News.

Janainna Rosa
Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos
MBA em Banking e Mercado de Capitais
Certificada ANBIMA (CEA)
Mais de 14 anos de experiência no mercado financeiro

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