Por Janainna Rosa
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A economia brasileira entra em uma nova etapa do ciclo monetário: a desaceleração da atividade ficou mais evidente e o Banco Central já iniciou a redução da Selic, mas o ambiente ainda não permite uma flexibilização mais rápida dos juros.
A Ata do Copom trouxe uma mudança importante de tom ao reconhecer que os dados mais recentes do PIB confirmam a perda de ritmo da economia. Ao mesmo tempo, o Comitê mantém atenção sobre a inflação, que ainda apresenta pontos de resistência.
Nesta semana, o Relatório Focus reforçou essa combinação. A projeção do IPCA para 2026 voltou a subir, chegando a 4,99%, enquanto as estimativas para o PIB foram novamente reduzidas: 1,86% para 2026 e 1,41% para 2027.
O Banco Central reduziu a Selic de 14% para 13,75%, mas a Ata deixa claro que a política monetária continua restritiva.
E um ponto que merece continuidade no nosso acompanhamento: mesmo após o corte da Selic, as taxas dos juros futuros negociados na B3 continuam próximas dos patamares observados anteriormente, especialmente nos vencimentos mais longos.
A leitura conjunta é de um Brasil que começa a experimentar algum alívio monetário, mas ainda convive com inflação acima da meta, crescimento moderado, riscos fiscais e juros elevados.
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Destaque da semana
A economia desacelera, mas o Banco Central ainda não pode relaxar
O principal destaque desta semana está na combinação entre atividade econômica mais fraca e inflação ainda resistente.
O Copom passou a reconhecer de forma mais clara que a economia está perdendo força. Segundo a Ata, a leitura mais recente do PIB confirmou a desaceleração que já vinha sendo indicada por outros indicadores.
Isso significa que os efeitos da política monetária restritiva começam a aparecer de maneira mais evidente.
As expectativas para 2026 voltaram a subir, os preços ao produtor apresentaram reaceleração e as expectativas de inflação permanecem acima da meta.
É justamente essa combinação que explica a cautela do Banco Central:
A economia está desacelerando, mas ainda não há segurança suficiente para acelerar a queda dos juros.
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O que mudou na leitura do Banco Central?
A Ata do Copom trouxe uma evolução importante em relação à avaliação anterior.
O Banco Central passou de uma leitura marcada por sinais de desaceleração para uma percepção mais clara de que a atividade efetivamente perdeu força.
O PIB mais recente confirmou esse movimento.
Isso indica que a política monetária restritiva está sendo transmitida para a economia, especialmente por meio das condições de crédito mais sensíveis aos juros.
Por outro lado, o Copom continua observando fatores que podem dificultar a convergência da inflação:
- demanda doméstica ainda pressionada;
- expectativas de inflação acima da meta;
- expansão do crédito direcionado;
- preços ao produtor em aceleração;
- riscos fiscais;
- possíveis estímulos à demanda.
Portanto, o Banco Central reconhece a desaceleração, mas ainda não considera que o processo de desinflação esteja consolidado.
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Inflação: o curto prazo voltou a preocupar
O Focus desta semana trouxe uma mudança relevante.
IPCA
Ano Semana anterior Atual Movimento
2026 4,92% 4,99% ↑
2027 4,30% 4,31% ↑
2028 3,80% 3,80% =
2029 3,50% 3,50% =
A projeção para 2026 subiu pela segunda semana consecutiva, aproximando-se novamente do patamar de 5%.
Já as projeções de 2028 e 2029 permanecem estáveis, mostrando que a piora está mais concentrada no horizonte mais próximo.
Isso é importante porque indica que:
O processo de desinflação continua sendo esperado, mas o caminho até ele não será necessariamente linear.
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O que significa inflação de 4,99% para o consumidor?
É importante separar dois conceitos.
Uma inflação de 4,99% não significa que os preços vão cair 4,99%.
Significa que, em média, os preços deverão subir aproximadamente 4,99% ao longo do período.
Por isso, mesmo quando a inflação desacelera, a sensação de custo de vida elevado pode permanecer.
Para famílias, isso afeta principalmente: - alimentação;
- serviços;
- aluguel;
- educação;
- saúde;
- transporte;
- crédito.
Para empresas, afeta custos, margens e decisões de investimento.
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PIB: a economia perde força
As projeções para o crescimento também foram revisadas para baixo.
Ano Semana anterior Atual
2026 1,88% 1,86%
2027 1,43% 1,41%
2028 1,87% 1,83%
2029 2,00% 2,00%
Para 2026 e 2027, essa é a terceira semana consecutiva de revisão para baixo.
A projeção de crescimento continua positiva, mas de uma economia crescendo em ritmo relativamente baixo.
E aqui está uma questão estrutural:
Uma economia que cresce pouco tem menos espaço para absorver juros elevados por muito tempo.
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A atividade está desacelerando e isso começa a aparecer nos dados
A própria Ata do Copom reconhece que os dados recentes confirmaram a perda de ritmo.
Esse é um ponto importante porque demonstra que o efeito dos juros elevados está chegando à economia real.
Quando os juros permanecem elevados:
- financiamentos ficam mais caros;
- consumidores adiam compras;
- empresas postergam investimentos;
- capital de giro fica mais oneroso;
- famílias reduzem o consumo financiado.
Com o tempo, esses efeitos reduzem a demanda e ajudam a conter a inflação.
É justamente esse mecanismo que o Banco Central está observando agora.
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O que pode limitar os próximos cortes?
A Ata deixa alguns sinais bastante claros.
Expectativas de inflação
Ainda acima da meta, dificultam uma flexibilização mais rápida.
Demanda
Mesmo com desaceleração, ainda existem pressões relacionadas ao nível de atividade.
Crédito direcionado
Algumas modalidades continuam crescendo mesmo com a Selic elevada.
Preços ao produtor
A aceleração de custos na cadeia produtiva pode gerar pressão futura sobre os preços ao consumidor.
Fiscal
Uma percepção maior de risco fiscal pode elevar o prêmio exigido pelos investidores e dificultar a queda estrutural dos juros.
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Crédito direcionado: por que o Copom está olhando para isso?
Esse é um dos pontos mais interessantes da Ata.
O Banco Central observa que os efeitos da política monetária aparecem mais claramente nas modalidades de crédito sensíveis à Selic.
Entretanto, o crédito direcionado continua apresentando expansão.
Em termos simples:
Parte do sistema de crédito está respondendo aos juros altos, enquanto outra parte continua fornecendo recursos para famílias e empresas por condições menos diretamente ligadas à Selic.
Isso pode reduzir parte do efeito de desaceleração produzido pela política monetária.
Por isso, o comportamento do crédito continuará sendo importante para entender a velocidade de queda da inflação.
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Preços ao produtor: um risco que merece atenção
Outro destaque da Ata é a mudança na dinâmica dos preços ao produtor.
O Copom observou aceleração dos preços de:
- bens intermediários;
- bens de consumo.
Por que isso importa?
Porque os preços ao produtor estão na cadeia anterior à formação do preço final.
Se os custos aumentam, as empresas podem tentar repassar parte dessa alta para os consumidores.
Esse repasse não é automático.
Dependerá de: - demanda;
- concorrência;
- margens;
- condições financeiras;
- capacidade das empresas de absorver custos.
Mas é um indicador que merece acompanhamento porque pode dificultar uma queda mais rápida da inflação.
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Fiscal: o risco que continua no pano de fundo
A questão fiscal permanece fundamental para entender os juros brasileiros.
O Focus projeta uma trajetória crescente da dívida líquida do setor público:
- 2026: 70,0% do PIB;
- 2027: 73,8%;
- 2028: 76,45%;
- 2029: 79,07%.
Ao mesmo tempo, o resultado primário continua negativo nas projeções.
Isso significa que, mesmo com uma possível redução dos juros, a dívida pública continua sendo uma fonte importante de preocupação.
E existe uma relação direta entre fiscal e juros:
Quanto maior a percepção de risco sobre as contas públicas, maior pode ser o prêmio exigido pelo mercado para financiar o país.
É justamente aqui que a curva de juros futuros ganha importância.
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A curva de juros futuros continua elevada
Os dados acompanhados na B3 mostram que, mesmo depois do corte realizado pelo Copom, os contratos de juros futuros continuam próximos dos patamares anteriores.
A curva observada permanece aproximadamente em: - 2027: 13,6%;
- 2028: 13,8%;
- 2029: próximo de 14%;
- 2030: próximo de 14%.
Enquanto isso, o Focus projeta: - 2027: 12%;
- 2028: 10,50%;
- 2029: 10%.
Essa diferença não deve ser interpretada como uma previsão exata de que a Selic permanecerá em 14%.
O DI futuro incorpora expectativas e também prêmios de risco, condições de mercado e incertezas sobre o cenário futuro.
Mas o sinal é relevante:
Mesmo com o início do ciclo de cortes, o mercado ainda não reduziu significativamente as taxas de longo prazo.
Isso reforça a percepção de cautela em relação ao cenário brasileiro.
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A trajetória até 2029
O horizonte mais longo ajuda a entender a direção esperada para a economia.
Indicador 2026 2027 2028 2029
IPCA 4,99% 4,31% 3,80% 3,50%
PIB 1,86% 1,41% 1,83% 2,00%
Selic 13,50% 12,00% 10,50% 10,00%
Câmbio R$ 5,20 R$ 5,28 R$ 5,30 R$ 5,35
A expectativa é de:
inflação menor + juros menores + crescimento moderado.
Mas a concretização dessa trajetória dependerá de vários fatores.
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Câmbio permanece relativamente estável
O dólar projetado praticamente não mudou:
- 2026: R$ 5,20;
- 2027: R$ 5,28;
- 2028: R$ 5,30;
- 2029: R$ 5,35.
Essa estabilidade nas expectativas reduz, neste momento, a preocupação com um choque cambial como principal fonte de pressão inflacionária.
Ainda assim, o câmbio continua sendo um importante canal de transmissão para os preços, especialmente em produtos e insumos importados.
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O que isso significa para famílias, empresas e investidores?
Famílias
A possível continuidade da queda da Selic pode melhorar gradualmente as condições de crédito.
Mas não devemos esperar uma mudança imediata.
O cenário ainda exige:
- controle do endividamento;
- planejamento financeiro;
- cuidado com crédito rotativo;
- atenção ao custo efetivo dos financiamentos.
Empresas
A desaceleração pode significar menor demanda.
Ao mesmo tempo, juros menores podem aliviar gradualmente o custo financeiro.
Empresas com maior capacidade de planejamento, caixa e controle de endividamento estarão melhor preparadas para atravessar essa fase de transição.
Investidores
O ambiente exige olhar além da taxa oferecida hoje.
Com uma trajetória potencial de queda da Selic, investimentos contratados em taxas elevadas podem se tornar interessantes para determinados objetivos, mas é necessário considerar: - prazo;
- liquidez;
- risco de crédito;
- tributação;
- marcação a mercado;
- possibilidade de reinvestimento;
- diversificação.
A pergunta mais importante passa a ser:
Como posicionar a carteira diante de um cenário em que os juros podem cair, mas o mercado ainda exige taxas elevadas no longo prazo?
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O que fica no radar?
Inflação
A projeção de 2026 voltou para perto de 5%. Será importante observar se essa alta perde força ou se novas revisões acontecerão.
Atividade
As revisões negativas do PIB e a confirmação da desaceleração pelo Copom reforçam a necessidade de acompanhar o impacto dos juros sobre consumo e investimentos.
Preços ao produtor
A evolução dos custos na cadeia produtiva pode antecipar novas pressões sobre bens e serviços.
Crédito
O comportamento do crédito direcionado será importante para entender a velocidade de desaceleração da demanda.
Fiscal
A trajetória da dívida continua sendo um dos principais fatores capazes de influenciar o prêmio de risco e os juros futuros.
Juros
A permanência das taxas futuras em níveis elevados será um indicador importante para acompanhar a confiança do mercado na trajetória de queda da Selic.
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Fontes
- Banco Central do Brasil — Relatório Focus, 28 de setembro de 2026.
- Banco Central do Brasil — Ata do Copom, reunião encerrada em 16 de setembro de 2026.
- B3 — contratos de juros futuros/
Janainna Rosa Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos MBA em Banking e Mercado de Capitais Certificada ANBIMA — CEA Mais de 14 anos de experiência no mercado financeiro






