Por Janainna Rosa
⸻
O que movimentou a semana
A semana começou com um cenário ainda marcado pela desaceleração da economia brasileira, juros restritivos e aumento das preocupações com crédito, mas terminou com uma melhora relevante do apetite a risco.
O principal ponto de atenção continua sendo a mudança na dinâmica que vinha sustentando os ativos brasileiros. A combinação entre eleições, incerteza fiscal, saída de capital estrangeiro e menor espaço para cortes da Selic passou a pesar mais sobre a Bolsa.
Ao mesmo tempo, o ambiente externo adicionou novos desafios. A alta dos juros longos dos Treasuries elevou o custo de oportunidade dos mercados emergentes, enquanto a ata do Fed reforçou que a inflação ainda pode exigir uma política monetária mais restritiva.
No Brasil, os indicadores econômicos trouxeram sinais mistos: a inflação no atacado e ao consumidor mostrou comportamento mais benigno, mas o IBC-Br confirmou uma desaceleração significativa da atividade no segundo trimestre.
A semana terminou, porém, com uma recuperação do Ibovespa, que avançou 1,85% na sexta-feira, aos 171.031 pontos, e acumulou três sessões consecutivas de alta.
A principal leitura da semana é que o mercado continua extremamente sensível à mudança de expectativas. O movimento recente reforça a importância de acompanhar não apenas os indicadores isoladamente, mas a interação entre inflação, juros, atividade, fiscal, eleições e fluxo estrangeiro.
⸻
Dados da semana
O IGP-10 caiu 0,51% em agosto, após recuo de 1,13% em julho, levando o acumulado em 12 meses para 2,00%.
A queda foi influenciada principalmente pelo atacado, com destaque para derivados de petróleo e biocombustíveis, enquanto o IPC também registrou deflação, favorecido pelo bônus de Itaipu sobre as tarifas de energia.
O mercado continua atento à inflação de serviços, às expectativas desancoradas e aos efeitos que câmbio, petróleo, tarifas e atividade podem produzir nos próximos meses.
⸻
IBC-Br confirma desaceleração
O outro lado da fotografia veio do IBC-Br.
O indicador de atividade do Banco Central recuou 0,64% em junho e avançou apenas 0,2% no segundo trimestre, uma desaceleração expressiva em relação ao crescimento de 1,23% observado no primeiro trimestre.
A composição também chama atenção:
- Indústria: -1,4%
- Serviços: -0,5%
- Impostos: -1,0%
- Agropecuária: +1,0%
O ponto de atenção passa a ser o crédito. Com juros ainda elevados, endividamento das famílias e empresas e sinais de aumento da inadimplência, o risco é de uma desaceleração mais forte no segundo semestre.
Esse cenário ajuda a explicar por que algumas casas já trabalham com projeções mais conservadoras para 2027.
⸻
Brasil x Estados Unidos: por que os mercados estão andando em direções diferentes?
A divergência entre as bolsas brasileiras e americanas continua sendo bastante relevante.
Nos EUA, a inflação mais moderada e a força dos resultados corporativos, especialmente ligados à tecnologia e inteligência artificial, continuam movimentando o mercado.
No Brasil, os investidores passaram a exigir um prêmio maior para permanecer posicionados diante de:
eleições + fiscal + juros + crédito + fluxo estrangeiro.
Essa diferença ajuda a explicar por que o capital pode permanecer nos Estados Unidos mesmo quando os ativos brasileiros permanecem atrativos referente a preço.
O investidor global não compara apenas preço.
Ele compara retorno esperado ajustado ao risco.
⸻
Fed: inflação ainda é o principal divisor de águas
A ata do Federal Reserve trouxe uma mensagem mais dura.
Embora os dados recentes de inflação tenham mostrado alguma moderação, parte dos dirigentes continua preocupada com a possibilidade de que a inflação permaneça acima da meta por mais tempo.
O debate agora está concentrado em setembro.
De um lado:
inflação ainda elevada + riscos de persistência → juros mais altos.
Do outro:
atividade desacelerando + mercado de trabalho perdendo força → necessidade de evitar aperto excessivo.
Essa divisão aumenta a volatilidade dos ativos globais.
E existe um terceiro elemento: os juros longos dos títulos do tesouro americano.
⸻
Treasuries: o novo foco do mercado global
A alta dos juros dos títulos americanos de longo prazo merece atenção especial.
O Treasury de 30 anos ultrapassou 5,30%, enquanto o mercado também observou elevação dos juros longos em outras economias desenvolvidas.
O movimento não depende apenas da política monetária.
Entram na equação:
- dívida pública americana;
- déficits elevados;
- inflação;
- petróleo;
- necessidade de financiamento;
- forte emissão de dívida corporativa;
- investimentos relacionados à inteligência artificial.
Para o Brasil, juros americanos mais altos significam maior custo de oportunidade para investir em mercados emergentes.
Isso pode:
reduzir fluxos para ativos brasileiros;
pressionar o câmbio;
elevar o custo de captação;
dificultar a queda dos juros longos domésticos;
limitar o impacto positivo de novos cortes da Selic.
⸻
Câmbio: o fluxo estrangeiro continua importante
Depois de uma forte entrada de recursos ao longo do primeiro semestre, agosto trouxe uma reversão.
A saída de estrangeiros da Bolsa brasileira passou a ser um dos principais vetores de pressão sobre o mercado.
Na semana anterior, o dólar chegou a superar R$ 5,20, enquanto o Ibovespa acumulava uma sequência excepcional de quedas.
Na sexta-feira, entretanto, houve alívio:
Dólar: -0,93%, a R$ 5,1451.
A melhora do apetite a risco externo e o alívio na curva de juros ajudaram o mercado brasileiro a recuperar parte das perdas.
Isso mostra novamente que o câmbio continua funcionando como um importante termômetro da percepção de risco.
⸻
Fiscal e eleições: o principal risco doméstico
A proximidade das eleições de outubro mudou a dinâmica do mercado.
Pesquisas eleitorais passaram a produzir movimentos mais fortes nos ativos, enquanto investidores tentam antecipar a orientação econômica do próximo governo.
O fiscal está no centro dessa discussão.
Um cenário em que o próximo governo apresente um ajuste fiscal crível poderia:
reduzir prêmio de risco → melhorar juros longos → favorecer o real → abrir espaço para cortes de juros → beneficiar a Bolsa.
O contrário também é verdadeiro.
Uma deterioração das expectativas fiscais poderia provocar:
maior prêmio de risco → juros longos elevados → real mais fraco → pressão inflacionária → menor espaço para cortes → menor crescimento.
Por isso, a eleição não deve ser acompanhada apenas como evento político.
Ela será um dos principais determinantes da precificação dos ativos brasileiros nos próximos meses.
⸻
Fechamento da semana
O mercado encerrou a semana de maneira mais positiva.
Brasil
Ibovespa: +1,85%
171.031 pontos
O índice engatou a terceira sessão consecutiva de alta, apoiado pela melhora do ambiente externo, alívio na curva de juros e vencimento de opções.
Dólar: -0,93%
R$ 5,1451
Exterior
Dow Jones: +0,98%
S&P 500: +0,43%
Nasdaq: +0,44%
A recuperação mostra que a deterioração observada na primeira metade de agosto não representa necessariamente uma mudança estrutural definitiva, mas reforça a elevada sensibilidade dos mercados às expectativas.
⸻
O que acompanhar na próxima semana
Brasil
- Evolução das pesquisas eleitorais;
- Fluxo de capital estrangeiro;
- Curva de juros futuros;
- Inflação e expectativas;
- Dados de atividade e crédito;
- Desdobramentos da Lei da Reciprocidade;
- Discurso e próximos passos do Banco Central.
Estados Unidos
- Treasuries, especialmente os vencimentos longos;
- Expectativas para a decisão do Fed em setembro;
- Inflação e mercado de trabalho;
- Dados de consumo e atividade;
- Resultados das empresas de tecnologia.
Exterior e commodities
- Petróleo e tensões no Oriente Médio;
- Dólar global;
- Fluxo para mercados emergentes;
- Minério de ferro;
- Relação entre juros americanos e moedas emergentes.
⸻
Fontes de referência
IBGE, Banco Central do Brasil, FGV IBRE, Federal Reserve, B3, Tesouro Nacional, Reuters, Investing.com, JPMorgan
Janainna Rosa
Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos
MBA em Banking e Mercado de Capitais
Certificada ANBIMA (CEA)
Mais de 14 anos de experiência no mercado financeiro








