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Monitor Semanal de Mercado|Brasil entre desinflação, risco fiscal e aumento da incerteza institucional

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Por Janainna Rosa

O que movimentou a semana

A semana foi marcada por uma combinação de sinais distintos para a economia brasileira. De um lado, a inflação apresentou uma composição mais favorável nos núcleos, reforçando a possibilidade de continuidade do processo de desinflação e de flexibilização gradual da política monetária. De outro, o cenário fiscal continua exigindo atenção, enquanto o ambiente político e institucional ganhou força como fator de risco para os ativos domésticos.

O principal destaque político foi a evolução da crise envolvendo o Banco Master, que deixou de ser apenas uma investigação relacionada ao sistema financeiro e passou a envolver ministros do Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal, Procuradoria-Geral da República e diferentes instâncias do poder público.

A disputa ganhou nova dimensão ao longo da semana, com decisões individuais de ministros envolvendo o comando da Polícia Federal e, posteriormente, a determinação do presidente do STF, Edson Fachin, para ampliar a retirada do sigilo dos documentos relacionados às investigações do Master, ressalvadas diligências ainda em andamento.

Para os mercados, o ponto central não está apenas no conteúdo das investigações, mas no aumento da incerteza institucional e política em um momento em que o cenário eleitoral de 2026 começa a ganhar maior peso nas decisões dos investidores.

Esse ambiente já se refletiu nos preços dos ativos. Na sexta-feira, o dólar avançou diante da busca por proteção antes do fim de semana e da divulgação de nova pesquisa eleitoral, enquanto o Ibovespa encerrou o pregão em queda.

Ao mesmo tempo, os dados de inflação trouxeram uma leitura mais construtiva para a política monetária. O IPCA de agosto apresentou deflação, e os núcleos vieram abaixo das expectativas, mas a resistência dos serviços e a perspectiva de reversão do efeito temporário do bônus de Itaipu impedem uma interpretação excessivamente otimista.

Assim, a semana terminou com uma combinação importante para o investidor: inflação melhor na margem, mas riscos fiscais e políticos ainda elevados.

Fechamento da semana

Bolsa brasileira

O Ibovespa recuou 0,56% na sexta-feira, encerrando o pregão aos 187.206,89 pontos. Apesar da queda no último dia, o índice acumulou alta de 1,11% na semana.

O movimento de sexta-feira refletiu principalmente o aumento da cautela no ambiente doméstico, com as repercussões políticas envolvendo o caso Master e a expectativa pela divulgação de nova pesquisa eleitoral.

Entre os destaques negativos do pregão, HAPV3 caiu 8,06%, BBAS3 recuou 1,36%, PETR3 perdeu 0,22% e VALE3 apresentou baixa de 0,04%.

Na ponta positiva, BEEF3 avançou 3,77%, enquanto PETR4 subiu 0,24%. No acumulado semanal, SLCE3 esteve entre os principais destaques positivos.

O comportamento do índice mostra que, apesar da valorização semanal, o mercado continua bastante sensível à combinação entre cenário político, commodities, juros e fluxo estrangeiro.

Câmbio

O dólar à vista encerrou a sexta-feira em R$ 5,1254, alta de 0,44% no dia, mas terminou a semana com leve queda de 0,11%.

O movimento da sexta-feira chamou atenção porque ocorreu mesmo com o dólar internacional apresentando pouca alteração. A busca por proteção esteve relacionada principalmente ao aumento da incerteza doméstica, ao cenário eleitoral e aos possíveis desdobramentos do caso Master.

Para o investidor, o câmbio continua sendo uma importante válvula de proteção diante de episódios de aumento do risco doméstico.

Estados Unidos

As bolsas de Nova York encerraram a semana em alta:

  • S&P 500: +0,86%, aos 7.656,98 pontos;
  • Dow Jones: +0,98%, aos 52.573,29 pontos;
  • Nasdaq: +0,96%, aos 26.333,04 pontos.

O desempenho positivo ocorreu mesmo diante da atenção aos dados de inflação e aos próximos passos do Federal Reserve.

O comportamento dos Treasuries e as expectativas para a política monetária americana continuam relevantes para os mercados emergentes, especialmente porque alterações nos juros dos Estados Unidos podem afetar o fluxo de capital para países como o Brasil.

Mercados internacionais

Na Europa, o Stoxx 600 avançou 0,49%.

Na Ásia, o comportamento foi negativo, com destaque para a queda de 1,93% do Nikkei, no Japão, e de 0,60% do Hang Seng, em Hong Kong.

O petróleo também permaneceu no radar, principalmente pelos seus efeitos sobre inflação, empresas produtoras e importadoras e expectativas de política monetária.

Inflação: melhora nos núcleos, mas serviços ainda exigem cautela

O IPCA de agosto trouxe uma surpresa positiva. O índice registrou deflação de 0,32%, levando a inflação acumulada em 12 meses de 4,44% para 4,22% e o acumulado no ano para 3,11%.

Mais importante do que o índice cheio foi a composição.

A média dos cinco principais núcleos avançou 0,23%, abaixo das expectativas, enquanto os bens industriais subjacentes apresentaram desaceleração relevante.

Isso sugere que o processo de desinflação está avançando para além de componentes pontuais.

Entretanto, ainda há uma diferença importante entre os componentes da inflação.

Os serviços subjacentes continuam próximos de 5% na média trimestral anualizada, enquanto os serviços intensivos em trabalho permanecem ainda mais pressionados, em torno de 7,3%.

Esse comportamento mantém a cautela do Banco Central, porque serviços mais ligados ao mercado de trabalho e à demanda doméstica tendem a responder mais lentamente à política monetária.

Além disso, a inflação de serviços no índice cheio foi favorecida pela queda expressiva das passagens aéreas. Sem esse componente, a leitura teria sido menos confortável.

Outro ponto importante foi o aumento da difusão, de 49,60% para 54,38%, mostrando que a melhora da inflação não ocorreu de maneira uniforme em toda a cesta.

O ponto de atenção: o bônus de Itaipu

A deflação de agosto também foi fortemente influenciada pela energia elétrica residencial, que caiu 7,63%, refletindo o bônus de Itaipu.

Esse efeito precisa ser interpretado com cuidado.

O bônus representa uma devolução temporária aos consumidores e, portanto, não deve ser tratado como uma mudança estrutural no preço da energia.

Com a retirada desse efeito em setembro, a inflação deverá sofrer uma recomposição.

Esse é um exemplo importante de por que o investidor não deve olhar apenas para o número cheio do IPCA, mas para sua composição e para a sustentabilidade dos movimentos.

O que isso significa para o Copom?

O conjunto dos dados reforça a possibilidade de continuidade de um ciclo de cortes graduais da Selic, mas não oferece respaldo para uma aceleração significativa do ritmo.

A melhora dos núcleos é positiva, enquanto a resistência dos serviços, o mercado de trabalho e os riscos futuros em alimentos e energia recomendam cautela.

A discussão, portanto, passa gradualmente de “quando começar a cortar” para “até onde o Banco Central poderá levar a Selic”.

Fiscal: melhora pontual não resolve a trajetória da dívida

O quadro fiscal continua sendo um dos principais pontos de atenção para os ativos brasileiros.

A dívida bruta do governo geral alcançou 82,5% do PIB em julho, equivalente a aproximadamente R$ 10,9 trilhões.

Ao mesmo tempo, o setor público consolidado apresentou superávit primário de R$ 1,4 bilhão no mês, uma melhora expressiva em relação ao déficit registrado no mesmo período do ano anterior.

O problema está na perspectiva estrutural.

Em 12 meses, o setor público ainda acumula déficit primário de R$ 89,3 bilhões, equivalente a 0,67% do PIB.

Isso mostra que um resultado mensal positivo, embora importante, ainda não representa uma mudança na trajetória do endividamento.

Orçamento de 2027 aumenta a discussão

A proposta para 2027 acrescenta uma questão relevante ao debate fiscal.

O governo trabalha com uma meta formal de superávit primário de 0,5% do PIB, equivalente a cerca de R$ 73,2 bilhões. Entretanto, o resultado primário efetivo projetado ficaria entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, pouco acima de 0,1% do PIB.

A diferença ocorre porque determinadas despesas ficam fora do cálculo formal da meta, embora continuem produzindo impacto sobre as contas públicas.

É justamente essa distinção que merece atenção do mercado.

Cumprir formalmente a meta não significa necessariamente gerar um resultado fiscal suficientemente forte para reduzir a dívida.

As estimativas citadas apontam que seria necessário um superávit próximo de 2% a 2,1% do PIB para colocar o endividamento em trajetória de queda, muito acima do resultado efetivo atualmente projetado.

Para os ativos brasileiros, a questão fiscal permanece diretamente relacionada ao prêmio de risco.

Quanto maior a percepção de dificuldade para estabilizar a dívida, maior tende a ser a exigência de retorno dos investidores para financiar o governo, o que pode manter a curva de juros elevada e pressionar o câmbio.

Política e instituições: o risco que ganhou espaço nos preços

O caso Master evoluiu durante a semana de uma investigação envolvendo o sistema financeiro para uma crise com repercussões institucionais mais amplas.

O episódio passou a envolver informações sobre ministros do STF, contratos privados, investigações da Polícia Federal, atuação da PGR e divergências entre integrantes da própria Corte.

A sequência de decisões individuais envolvendo o afastamento e posterior reintegração de integrantes da Polícia Federal aumentou a percepção de conflito institucional.

A determinação de Edson Fachin para que documentos relacionados às investigações sejam submetidos ao Plenário e tenham o sigilo ampliado levantou ainda mais expectativas sobre os próximos desdobramentos.

Para o mercado, o risco está na imprevisibilidade.

Em momentos de maior incerteza política ou institucional, investidores tendem a reduzir posições de maior risco e buscar ativos de proteção. Foi justamente esse comportamento observado no câmbio na sexta-feira.

A proximidade do calendário eleitoral amplia a sensibilidade dos mercados, já que mudanças na percepção sobre o ambiente político podem afetar expectativas fiscais, regulatórias e econômicas.

Por isso, o tema deve permanecer no radar mesmo que seus efeitos econômicos diretos ainda sejam difíceis de mensurar.

Ambiente externo: Fed continua determinando o custo global do dinheiro

Nos Estados Unidos, o mercado segue atento aos indicadores de inflação, atividade e trabalho para avaliar os próximos passos do Federal Reserve.

A relação entre inflação e mercado de trabalho continua sendo central.

Um mercado de trabalho mais equilibrado, com desaceleração dos salários e aumento de produtividade, contribui para reduzir pressões de custos. Ao mesmo tempo, qualquer reaceleração da inflação ou aumento das expectativas pode limitar o espaço para cortes de juros.

Na Europa, a atividade permanece relativamente resiliente e o mercado de trabalho ainda apertado, enquanto o crescimento dos custos trabalhistas acima da produtividade aumenta o risco de pressão sobre a inflação subjacente.

Esse ambiente mantém a política monetária internacional como importante variável para o Brasil.

Uma eventual manutenção de juros elevados nas economias desenvolvidas por mais tempo tende a aumentar a competição por capital e pode limitar a valorização de moedas emergentes.

Grande leitura da semana

A semana deixa uma mensagem importante: a melhora da inflação é real, mas ainda não é suficiente para eliminar os riscos que cercam a economia brasileira.

Os núcleos apresentaram comportamento mais favorável e indicam que a desinflação está ganhando alguma consistência. Isso abre espaço para uma política monetária menos restritiva.

Mas três fatores impedem uma leitura excessivamente otimista.

O primeiro é a resistência dos serviços, especialmente daqueles mais ligados ao mercado de trabalho.

O segundo é o fiscal, com uma dívida elevada e um resultado efetivo projetado para 2027 ainda distante do esforço considerado necessário para alterar sua trajetória.

O terceiro é o risco político-institucional, que ganhou relevância justamente em um momento em que o mercado começa a antecipar o ambiente eleitoral de 2026.

A combinação desses fatores explica por que o mercado pode continuar apresentando comportamentos diferentes entre os ativos: enquanto uma inflação melhor favorece a renda fixa prefixada e ativos de risco, o fiscal e a política podem limitar a queda dos juros longos e aumentar a volatilidade do câmbio e da bolsa.

Para o investidor, a principal conclusão é que o cenário exige mais seletividade do que simplesmente uma aposta na queda da Selic.

O ambiente ainda oferece oportunidades, mas a diversificação, o controle de risco e a avaliação do horizonte de investimento tornam-se cada vez mais importantes.

O que acompanhar na próxima semana

Brasil

  • Decisão e comunicação do Copom e os próximos passos do ciclo de cortes da Selic.
  • Evolução dos desdobramentos do caso Master e da crise institucional no STF.
  • Novas pesquisas eleitorais e seus impactos sobre os ativos.
  • Tramitação e discussão do Orçamento de 2027.
  • Evolução da curva de juros e do prêmio de risco fiscal.
  • Comportamento do dólar diante do ambiente político.

Estados Unidos

  • Reunião do Federal Reserve e sinalização sobre os próximos cortes ou manutenção dos juros.
  • Inflação, mercado de trabalho e expectativas de preços.
  • Comportamento dos Treasuries e impacto sobre os mercados emergentes.

Exterior e commodities

  • Petróleo e seus efeitos sobre inflação global.
  • Atividade econômica e política monetária na Europa.
  • Fluxo internacional para mercados emergentes.

Para o investidor

O principal ponto será observar se a melhora da inflação brasileira consegue avançar para os componentes mais persistentes, ao mesmo tempo em que o cenário fiscal e político permanece sob controle.

A trajetória dos juros brasileiros dependerá cada vez mais da combinação entre inflação, expectativas, atividade, fiscal e prêmio de risco — e não apenas do comportamento do IPCA de um único mês.

Fontes de referência

Banco Central do Brasil; IBGE; Reuters; Investing.com; Itaú; Banco Inter; Infoney, MoneYTimes , BM&C News

Janainna Rosa
Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos
MBA em Banking e Mercado de Capitais
Certificada ANBIMA (CEA)
Mais de 14 anos de experiência no mercado financeiro

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