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Retrospectiva do Mercado Financeiro 2025 – Pelo olhar de uma consultora de investimentos

2025, sem dúvidas, ficará marcado na minha história profissional e na de muitos colegas de mercado. Que ano, meus amigos.

Muita gente compara este momento ao que vivemos em 2016, um período lembrado pela forte instabilidade econômica: recessão histórica de –3,6% no PIB, inflação elevada, juros altíssimos, crise fiscal e um ambiente político extremamente delicado. Eu já trabalhava no mercado financeiro naquela época e lembro bem da sensação de insegurança.

Mas agora, atuando diretamente na linha de frente dos investimentos, posso afirmar: 2025 está sendo ainda mais desafiador.

Vivemos um ambiente marcado por instabilidade política e, principalmente, jurídica e isso naturalmente deixa investidores mais inseguros. Nessas horas, nosso papel vai muito além da técnica: passa a ser, sobretudo, um trabalho de confiança.

E é importante dizer: nós, profissionais do mercado, não temos todas as respostas. Nem mesmo especialistas jurídicos conseguem afirmar com precisão os próximos passos. Mas não podemos ignorar que estamos navegando em águas mais voláteis e isso exige postura, prudência e planejamento.

E aí você pode pensar:
“Mas Janainna, você quer desmotivar as pessoas a investirem?”

Pelo contrário. Justamente porque o cenário é desafiador, o planejamento é ainda mais essencial.

No meu artigo “Onde Investir em 2025 – Parte II”, falei sobre os ciclos econômicos: eles não se repetem de maneira idêntica, mas servem como referência para entendermos como agir diante de eventos semelhantes. O risco nunca desaparece 100%; cada ciclo traz suas particularidades.

Quando olhamos para os eventos de 2025, fica claro que o mercado está sendo colocado à prova.

Veja alguns exemplos concretos:


1. O caso Ambipar

A Ambipar, grupo brasileiro de gestão ambiental e resposta a emergências, entrou em recuperação judicial no Brasil, com dívida estimada em R$ 10,7 bilhões e suspeitas de irregularidades contábeis.

Além disso, pediu proteção contra credores nos EUA via Chapter 11 um mecanismo da Lei de Falências dos Estados Unidos que permite às empresas em crise financeira reorganizarem suas atividades com proteção judicial, mantendo suas operações enquanto negociam um plano de reestruturação.

O impacto foi profundo: forte queda nas ações e perdas significativas para investidores expostos a estruturas atreladas à empresa, especialmente produtos complexos e crédito privado.


2. A crise da Braskem

A Braskem é uma empresa petroquímica de atuação global nas indústrias da química e do plástico. A companhia vive um dos períodos mais delicados de sua história, com volatilidade extrema, endividamento elevado e incerteza societária.

A deterioração do ambiente macroeconômico e os desafios internos arrastaram o valor dos papéis e aumentaram o risco percebido em instrumentos de crédito da empresa.


3. Investigações envolvendo fundos de investimento

Operações da Polícia Federal revelaram casos de utilização de estruturas financeiras para fins ilícitos, incluindo suspeitas de lavagem de dinheiro. Ainda que pontuais, esses episódios abalam a confiança do investidor e reforçam a necessidade de due diligence séria tanto do produto quanto da instituição que o oferece.

Due diligence (diligência prévia) é um procedimento fundamental em parcerias de negócio, fusões e aquisições. Ela envolve profissionais de diferentes áreas que somam esforços para identificar riscos e oportunidades durante o processo.


4. A queda do Banco Master

A queda do Banco Master que muitos já apelidam de “o maior calote da história do país”, embora esperada por diversos agentes do mercado, vinha sendo sinalizada por múltiplas evidências públicas. Entre elas, destacava-se a agressividade na captação de recursos por meio da oferta de taxas excessivamente elevadas, um movimento típico de alavancagem. Essa prática, adotada não apenas pelo Banco Master, mas por diversos bancos digitais, levou o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a implementar limites e regras mais rigorosas, com destaque para o estabelecimento do teto máximo de 120% do CDI nas captações elegíveis à garantia.

Paralelamente, o avanço desse modelo de negócios impulsionou uma revisão regulatória, com iniciativa do Banco Central do Brasil para endurecer as regras aplicáveis a fintechs e bancos digitais, buscando mitigar riscos sistêmicos e proteger os investidores. Soma-se a esse contexto a dificuldade e posterior recusa na tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), após apontamentos de irregularidades identificadas durante o processo de análise.

Diante desse cenário, o Banco Central decretou a liquidação da instituição. A liquidação é um regime especial no qual o Banco Central afasta os administradores, interrompe as atividades do banco e nomeia um liquidante, responsável por apurar ativos e passivos e conduzir o pagamento dos credores conforme a ordem legal de prioridades, com o objetivo de preservar a estabilidade do sistema financeiro.

Com a liquidação, os investidores detentores de CDBs, LCIs e LCAs do Banco Master passam a integrar o processo de ressarcimento pelo Fundo Garantidor de Créditos, desde que seus investimentos sejam elegíveis à garantia. Nesses casos, não é necessário “entrar na fila” por iniciativa própria: o FGC, a partir das informações fornecidas pelo liquidante, identifica os credores e realiza os pagamentos até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição, observando o teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos.

Segundo estimativas, o FGC deverá efetuar pagamentos a cerca de 1,6 milhão de credores, com um volume total que pode alcançar R$ 41 bilhões o maior resgate da história do fundo em seus 30 anos de existência. O número expressivo evidencia não apenas a dimensão do colapso, mas também o risco associado à busca indiscriminada por rentabilidades elevadas.

O caso, contudo, segue cercado por reviravoltas, incluindo investigações envolvendo executivos, políticos e agentes do mercado, com suspeitas de lavagem de dinheiro e fraudes, indicando que ainda haverá muitos capítulos dessa história.

Ainda assim, muitos investidores continuam priorizando “taxas altas” em detrimento da segurança um erro recorrente que o mercado insiste em repetir.


COEs: quando o risco pouco compreendido se materializa

E não poderia deixar de citá-los aqui: o ativo que tomou conta das redes e foi um dos assuntos mais comentados em 2025 os COEs (Certificados de Operações Estruturadas).

Por anos, os COEs foram vistos como alternativas “sofisticadas” ou “protegidas”, mas 2025 expôs seu lado mais sensível: o risco atrelado ao ativo de referência e ao emissor.

Os casos envolvendo Ambipar e Braskem escancararam isso.

Quando as empresas entraram em forte estresse financeiro, muitos investidores descobriram que a chamada “proteção condicional” simplesmente não protege em momentos críticos.

A estrutura funciona… até deixar de funcionar.


Reflexão necessária

E faço questão de reforçar algo que acredito profundamente: assim como o país sofre as consequências da falta de planejamento e visão de longo prazo, o investidor individual também paga um preço alto quando decide olhando apenas para o agora.

Não faz parte da minha atuação recomendar instituições frágeis, assumir riscos excessivos ou indicar produtos que não estejam alinhados ao perfil e aos objetivos de quem confia em meu trabalho. Esse é um caminho que exige critério, responsabilidade e, por vezes, escolhas mais difíceis.

Mas é o caminho certo.

Meu compromisso é com a responsabilidade e com o respeito ao patrimônio dos investidores que confiam no meu trabalho ao longo da minha trajetória profissional. Porque, enquanto o investidor continuar guiado por promessas de retorno rápido, por taxas milagrosas ou por influenciadores que nunca enfrentaram um ciclo completo, sua carteira permanecerá vulnerável.

O profissional que trabalha sem viés comercial não entrega o maior retorno do mês entrega segurança, coerência e continuidade. Entrega aquilo que sustenta o patrimônio no longo prazo.


Não foram apenas os episódios de volatilidade e risco elevado que mostraram isso. A própria reforma tributária, reforma de IR e todo o ambiente regulatório em transformação deixaram claro que é preciso investir sem viés comercial, entendendo profundamente seu patrimônio, seus objetivos, seus prazos e principalmente seu perfil de risco.

Sempre falo aqui sobre a relação entre risco e retorno: quanto de risco você está assumindo para o retorno que realmente recebe?

E 2025 deixou uma lição dura, porém necessária: em muitos casos, os retornos não compensaram o risco.

Proteger patrimônio não é sobre “ganhar mais”, é sobre:
• proteger;
• ajustar;
• acompanhar;
• e, acima de tudo, respeitar as necessidades individuais de cada investidor.

Ignorar isso só torna as consequências mais difíceis e, às vezes, irreversíveis.

Este artigo começou como uma retrospectiva, mas se tornou um convite à reflexão.

E, para finalizar, deixo as sugestões que considero essenciais para quem quer entrar em 2026 preparado:
• Estruture seu planejamento financeiro alinhado ao seu perfil, objetivos e horizonte de tempo;
• Revise posições de alto risco e entenda seu real impacto no patrimônio;
• Fique atento às janelas de oportunidade que surgem mesmo em cenários adversos;
• Ajuste sua estratégia para 2026 com foco em coerência e consistência;
• E, acima de tudo, lembre-se: planejamento financeiro é adaptável. Ele exige acompanhamento, disciplina e, principalmente, um trabalho sem viés comercial, voltado ao que realmente importa a sustentabilidade do seu patrimônio no longo prazo.

2025 foi um ano de muitos eventos que marcaram o mercado e também um ano de aprendizado.

Que ele sirva como ponto de virada para um ciclo mais consciente e, principalmente, como preparação para 2026, que será um ano político, carregado de volatilidade, incertezas e decisões que podem mexer profundamente com juros, câmbio, Bolsa e percepção de risco.

Se 2025 exigiu atenção, 2026 exigirá atenção redobrada.

Será um ano que premiará não quem corre atrás apenas de retornos, mas quem constrói estratégia, protege patrimônio e age com disciplina, consistência e visão de longo prazo.


Fontes & Referências

Reportagens e Notícias

Ambipar pede recuperação judicial no Brasil e nos EUA; dívida total soma R$ 10,7 bilhões — InvestNews (2025)
Empresa de gestão ambiental entra em recuperação judicial; dívidas ultrapassam R$ 10 bilhões — BNews (2025)
Justiça do Rio aceita recuperação judicial da Ambipar — InvestNews (2025)
BC diz que “grave crise de liquidez” motivou liquidação do Banco Master — InfoMoney (2025)
Fim do Master: trabalhadores e 12 milhões de clientes serão afetados — Agência Brasil (2025)
Banco Master recebeu investimentos de fundo ligado ao crime organizado — CNN Brasil (2025)

Documentos Oficiais e Regulatórios

• Banco Central do Brasil — Comunicados oficiais, RIF e normativos
• CVM — Processos sancionadores e alertas ao mercado
• B3 — Comunicados, fatos relevantes e dados do mercado
• FGC — Estatutos, comunicados e manuais de garantia

Análises de Mercado

• XP Insights — Relatórios setoriais e de riscos
• BTG Pactual Research — Estudos macro e corporativos
• Genial Research — Acompanhamento de crédito privado
• Empiricus Data — Eventos corporativos e risco sistêmico

Outras Fontes Relevantes

• Notas oficiais das empresas citadas (Ambipar, Braskem, Banco Master)
• Operações da Polícia Federal — Documentos públicos relacionados às investigações
• Ministérios da Fazenda e do Planejamento — Avaliações sobre risco fiscal
• Relatórios internacionais: Fitch Ratings, S&P Global, Moody’s
• ANBIMA — Relatório de Fundos e Código de Distribuição

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