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Monitor Semanal de Mercado | Inflação perde força, Selic volta ao radar e o mercado reavalia os riscos globais

Por Janainna Rosa

Fechamento dos Mercados

A segunda semana de julho foi marcada por uma melhora significativa no humor dos mercados, especialmente no Brasil. A combinação entre uma inflação doméstica mais benigna, expectativa de continuidade do ciclo de cortes da Selic e redução parcial dos temores geopolíticos favoreceu os ativos de risco.

O Ibovespa encerrou a sexta-feira (10) com forte valorização de 2,97%, aos 177.866 pontos, acumulando ganho de 2,18% na semana, aproximando-se novamente de suas máximas históricas.

O movimento foi amplamente sustentado pelos setores domésticos, especialmente bancos e empresas sensíveis aos juros.

Entre os destaques positivos estiveram:

  • CSN (CSNA3): +7,92%, impulsionada por notícias envolvendo a possível venda da CSN Cimentos;
  • Itaú (ITUB4): +3,90%, liderando o movimento positivo do setor financeiro;
  • Vale (VALE3): +1,50%;
  • Petrobras (PETR3 e PETR4): +1,33% e +1,12%, respectivamente.

Na ponta negativa, apenas PRIO3 (-0,38%) encerrou o pregão em queda, pressionada pela prorrogação do imposto sobre exportação de petróleo bruto.

No mercado cambial, o dólar encerrou a semana cotado a R$ 5,1084, acumulando queda de 1,17%, refletindo o aumento do fluxo para ativos brasileiros e o enfraquecimento global da moeda americana.

Nos Estados Unidos, os índices acionários também encerraram a semana em alta:

  • Dow Jones: +0,29%
  • S&P 500: +0,42%
  • Nasdaq: +0,29%

Apesar do ambiente ainda desafiador, os investidores passaram a precificar um cenário menos adverso para a inflação global.

Panorama da Semana

A principal mensagem deixada pelos mercados nesta semana foi a de que o processo de desinflação começa a ganhar tração, embora ainda exista elevada incerteza sobre o ritmo da política monetária global.

No Brasil, o destaque ficou para a divulgação do IPCA de junho, que surpreendeu positivamente e reforçou a expectativa de um novo corte de juros em agosto.

No exterior, o foco permaneceu dividido entre:

  • a divulgação da ata do Federal Reserve;
  • os sinais de desaceleração do mercado de trabalho americano;
  • e a evolução das tensões no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, o mercado começou a compreender melhor a nova abordagem do presidente do Fed, Kevin Warsh, que pretende tornar a comunicação do banco central americano mais simples e mais dependente dos dados econômicos.

Inflação no Brasil: sinais mais claros de desaceleração

O principal indicador econômico da semana foi o IPCA de junho.

A inflação registrou alta de apenas 0,16%, abaixo das expectativas do mercado (0,31%) e muito inferior aos 0,58% observados em maio.

No acumulado de 12 meses, o índice desacelerou de 4,72% para 4,64%, retornando ao menor nível em oito meses.

Entre os principais destaques:

queda dos preços dos alimentos;

desaceleração da energia elétrica;

menor espalhamento inflacionário;

redução da inflação de serviços.

O resultado reforça a percepção de que o aperto monetário implementado nos últimos anos começa a produzir efeitos mais evidentes sobre a economia.

Apesar disso, a inflação ainda permanece acima do teto da meta contínua de 4,5%, o que sugere que o Banco Central deverá manter uma postura cautelosa.

O mercado passou a precificar majoritariamente um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto, levando a Selic para 14,00% ao ano.

Estados Unidos: uma nova era no Federal Reserve

A semana também trouxe importantes reflexões sobre os rumos da política monetária americana.

A ata da última reunião do Federal Reserve mostrou um comitê dividido.

Embora todos os dirigentes tenham votado pela manutenção dos juros, diversos membros demonstraram preocupação com:

  • inflação persistente;
  • impactos da inteligência artificial sobre a demanda;
  • riscos geopolíticos;
  • efeitos das tarifas comerciais.

A ata mostrou que alguns dirigentes chegaram a discutir a necessidade de novas altas de juros caso a inflação permaneça elevada.

Ao mesmo tempo, sobre a liderança de, Kevin Warsh, começa a implementar mudanças importantes na forma de atuação da autoridade monetária.

A principal delas é a redução do chamado forward guidance, ou seja, a prática de antecipar ao mercado os próximos passos da política monetária.

A partir de agora, o Fed tende a adotar uma postura mais dependente dos dados econômicos, aumentando a importância de cada indicador divulgado.

Essa mudança tende a elevar a volatilidade dos mercados, mas também reduz o risco de o banco central ficar preso a orientações futuras em um ambiente de rápidas transformações econômicas.

Outro ponto extremamente positivo para o Brasil foi a nomeação de Armínio Fraga para liderar um dos grupos de trabalho responsáveis pela revisão institucional do Federal Reserve.

A participação de um ex-presidente do Banco Central brasileiro em um processo dessa magnitude reforça a credibilidade técnica do Brasil no cenário internacional.

Payroll: desaceleração, mas sem deterioração

O relatório de emprego dos Estados Unidos trouxe sinais mistos.

A economia americana criou 57 mil vagas em junho, abaixo das expectativas de mercado de 115 mil vagas.

Além disso, houve revisões negativas para os meses anteriores.

Por outro lado, a taxa de desemprego caiu de 4,3% para 4,2%, mostrando que o mercado de trabalho permanece relativamente resiliente.

É importante lembrar que, diferentemente do Banco Central brasileiro, o Federal Reserve possui um duplo mandato:

  1. Controle da inflação;
  2. Manutenção de um mercado de trabalho saudável.

Por isso, os indicadores de emprego possuem enorme relevância para a condução da política monetária americana.

Embora o Payroll tenha mostrado sinais de moderação, os dados ainda não foram suficientes para alterar significativamente a percepção de juros elevados por mais tempo.

Oriente Médio: o mercado aprende a conviver com o risco

O conflito no Oriente Médio continua sendo um dos principais vetores de incerteza global.

Entretanto, o comportamento recente dos mercados começa a transmitir uma mensagem importante.

Nos momentos de maior tensão, os ativos reagem negativamente.

Quando surgem sinais de estabilidade, os mercados recuperam parte das perdas.

O petróleo continua respondendo às notícias, porém já não rompe as máximas observadas no início do conflito.

Isso sugere que investidores e gestores começam a incorporar esse cenário como um risco persistente, mas administrável.

Em outras palavras:

o mercado parece entender que o conflito pode durar mais tempo, porém sem necessariamente gerar uma ruptura imediata da atividade global.

Essa leitura ajuda a reduzir parte das pressões inflacionárias e evita movimentos mais extremos nos preços dos ativos.

Cenário Fiscal: preocupação permanece no radar

Apesar do bom desempenho dos mercados nesta semana, a questão fiscal continua sendo um dos principais desafios estruturais do Brasil.

O Tesouro Nacional divulgou projeções mostrando que o atual arcabouço fiscal, isoladamente, não é suficiente para garantir o cumprimento das metas fiscais até o final da década.

O documento estima que serão necessárias medidas adicionais equivalentes a até 1,6% do PIB para equilibrar as contas públicas.

O principal desafio continua sendo o crescimento das despesas obrigatórias, especialmente:

  • Previdência;
  • Benefício de Prestação Continuada (BPC);
  • despesas de pessoal;
  • custo crescente da dívida pública.

Para o mercado, o impacto é direto:

aumento do prêmio de risco;

juros estruturais mais elevados;

menor espaço para investimentos;

maior exigência de retorno para investir no país.

Por isso, embora os ativos brasileiros permaneçam atrativos, a evolução do cenário fiscal continuará sendo determinante para os mercados no segundo semestre.

Visão da Semana

A semana reforçou que o processo de desinflação avança tanto no Brasil quanto no exterior, ainda que em ritmos diferentes.

No Brasil, a inflação mais benigna abre espaço para novos cortes da Selic e melhora a percepção sobre os ativos domésticos.

Nos Estados Unidos, o cenário continua mais complexo, com inflação ainda elevada e uma nova estratégia de comunicação por parte do Federal Reserve.

Ao mesmo tempo, os riscos geopolíticos permanecem presentes, mas já são tratados pelo mercado de forma menos disruptiva.

Para os investidores, o ambiente continua exigindo:

diversificação;

disciplina;

foco no longo prazo;

acompanhamento constante dos riscos fiscais e monetários.

Radar da Próxima Semana

Os principais temas que devem permanecer no radar dos investidores são:

  • Atualização das expectativas para a reunião do Copom de agosto;
  • Novas falas de dirigentes do Federal Reserve;
  • Evolução dos indicadores de inflação e atividade nos Estados Unidos;
  • Desdobramentos fiscais no Brasil;
  • Fluxo de capital estrangeiro para os ativos locais;
  • Evolução do conflito no Oriente Médio;
  • Comportamento do petróleo e das commodities.

Fontes

  • Banco Central do Brasil – Boletim Focus
  • IBGE – IPCA
  • Federal Reserve – Ata do FOMC
  • Bureau of Labor Statistics (Payroll)
  • Tesouro Nacional – Relatório de Projeções Fiscais
  • Reuters
  • Investing Brasil
  • InfoMoney
  • Money Times

Janainna Rosa
Especialista em Investimentos | Colunista de Educação Financeira e Investimentos
MBA em Banking e Mercado de Capitais
Certificada ANBIMA (CEA)
Mais de 14 anos de experiência no mercado financeiro

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